A Integração dos CET na FA
Se atentarmos no que se passa na sociedade civil, verificamos que se está a caminhar num trilho onde se está a valorizar a formação, mais concretamente a Formação Profissional.
Já lá vão os tempos, e ainda bem, em que proliferaram escolas e centros de formação por todo o País, a maior parte deles com o expresso ou camuflado intuito de se candidatarem aos incentivos económicos da União Europeia. Hoje em dia essa questão está, ainda bem, e pelo que me é dado perceber da experiência como formador num contexto extra FA, muito mais “apertada” e as empresas e centros de formação têm de justificar, com muito mais vigilância por parte das entidades competentes, os cursos que vão dando.
Quem não se lembra de ouvir comentários de alguns formandos que tiraram cursos em que apenas tinham que ir lá assinar a folha de presenças para ganhar o subsídio de refeição? Esses tempos denegriram (e de que forma!) a Formação Profissional. Estas últimas alterações aos programas de Formação Profissional vieram dar mais seriedade a esta matéria. Ainda bem que alguém se apercebeu que os diplomas tirados administrativamente rapidamente se transformam num pesadelo para quem os possui e para quem os assina.
Os CET aportam, sem dúvida, um valor acrescentado para quem resolve investir nesse percurso, seja por não ter tido oportunidade de completar os estudos, seja com o intuito de ingressar posteriormente no Ensino Superior, seja somente para tirar uma qualificação profissional reconhecida e de valor, seja pelas demais razões que os documentos de apoio ao tema enumeram.
Como já tive oportunidade de referir no fórum, este tipo de cursos vem resolver a falta de pessoal especializado tecnicamente em determinadas áreas, lacuna que foi sendo criada com a abolição das antigas escolas comerciais e industriais e dos bacharelatos, os quais, embora de maneiras diferentes, garantiam que quem deles saía para o mercado de trabalho tinha competências e valências profissionais que lhe permitiam singrar e ser reconhecido.
A formação profissional na época inicial e que já referi não veio resolver este problema, pois, na maior parte dos casos, era dada por formadores não qualificados ou, sendo estes qualificados, nem sempre os conhecimentos eram transmitidos, seja pela ausência de formandos às sessões de formação, seja pela falta de rigor nos cursos.
Hoje em dia, uma pessoa que frequenta um CET, à partida, sai com uma qualificação que lhe permite trabalhar e não ter problemas quanto ao conhecimento apreendido durante o curso.
A integração deste tipo de formação na FA requer, contudo, algumas reflexões e uma ponderação muito cuidadas, pois a sua implementação requer custos e recursos, além de um factor muito importante e, em grande parte das decisões que são tomadas ao mais alto nível, decisivo: mais tempo de formação.
A sua aplicabilidade seria, em meu entender, ao nível do curso de Sargentos do QP, uma vez que são os verdadeiros técnicos que a FA possui. No entanto, com as vertentes diferentes de acesso e tempo de frequência do Curso de Sargentos, a continuidade do mesmo para um curso tipo CET teria que ser muito bem estruturada para permitir um acompanhamento completo de todas e cada turma, nas diferentes especialidades.
Certamente que a principal questão está ao nível do tempo necessário para a sua realização, tendo em conta o tempo de formação das componentes Sociocultural e Científico-tecnológica (840 a 1020 horas, dependendo das áreas). A questão do tempo de formação em contexto real de trabalho não se coloca como sendo um aspecto negativo, pois os formandos já estariam a desenvolver trabalho. Por outro lado, o Curso de Sargentos actual já possui, dependendo das especialidades, algumas matérias que poderiam perfeitamente ter correspondência com alguns módulos das duas componentes anteriormente referidas, pelo que o tempo poderia ser diminuído.
Mesmo com a problemática do tempo e com as necessárias exigências ao nível da reestruturação do Curso de Sargentos, julgo ser enquadrável no contexto de formação da FA uma tipificação CET. Não estou a dizer que os Sargentos que neste momento a FA possui não têm qualificações, pelo contrário. Apenas estou a defender que este tipo de formação lhes daria mais valências e uma outra coisa muito importante: um reconhecimento interno e externo: o nível 4.
A aplicabilidade deste tipo de curso aos Praças não faz sentido, uma vez que estes, pretendendo ficar no QP, terão que optar pelo ingresso no curso de Oficiais ou no Curso de Sargentos. A optarem directamente pelo primeiro, sairão com um curso de nível superior; a optarem pelo segundo, sairiam com o Nível 4, se este se vier a implementar.
Como chefia intermédia e tendo já comandado pessoal, mais concretamente ao nível da Manutenção de aeronaves, entendo e defendo que quanto mais qualificações especificas os indivíduos que efectuam trabalho de mão-de-obra directa possuírem, mais partido tira disso a Instituição e mais fácil se torna o seu comando e a sua orientação. Por isso, vejo com bons olhos a possibilidade de integração dos CET na FA
Miguel Corticeiro Neves
domingo, 15 de fevereiro de 2009
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